re
eHammer, Sickle and Four logo
Vanguarda
              Operária

abril de 2016

A esquerda oportunista
a reboque dos blocos burgueses

Durante todo o último ano, o Brasil tem sido sacudido por uma aguda crise política entre o governo burguês da frente popular da presidente Dilma Rousseff do PT (Partido dos Trabalhadores), e a oposição de direita tradicional que quere afastá-la do Palácio do Planalto pela via parlamentar (impeachment) ou de outra maneira. Porém, governo e oposição compartilham o mesmo programa fundamental, de resolver a crise econômica capitalista atacando os trabalhadores, e só podem divergir (às vezes) sobre o ritmo e o grau dos ataques. Neste contexto de disputa entre duas forças burguesas, a esquerda brasileira é dividida em dois grandes campos: o pró-PT que grita “não vai ter golpe”, e o anti-PT que grita “fora todos”. Não obstante a fingida independência política de um e outro, na realidade ambos os campos são apêndices das forças capitalistas em conflito no âmbito da democracia burguesa. Agora com o acréscimo de uma escalada de ações arbitrárias judiciárias e policiais por parte dos promotores da Operação Lava Jato, precisa-se não de um ilusório “terceiro campo” no terreno da democracia burguesa, senão de uma oposição de classe, operária, com um programa de luta revolucionária contra toda a classe dominante e contra o perigo de um desenlace autoritário.

O campo petista de esquerda busca camuflar a frente popular


O ex-presidente Lula (no centro) no ato contra o impeachment convocado pelo PT, as centrais sindicais CUT e CTB, e o PCdoB na noite do dia 18 de março. Dizendo lutar contra o “golpe”  e de uma tomada do poder iminente pelos “fascistas”, o Partido da Causa Operária e demais correntes no “campo” petista dão um apoio político à frente popular burguesa. Os autênticos trotskistas trazem a linha de classe ao se opôr ao impeachment e lutar ao mesmo tempo contra as medidas anti-operárias do governo e da direita. (Foto: LBI)

Para a esquerda petista e filo-petista o impeachment já seria o golpe. Isto é o tema constante nas matérias publicadas pelo Partido da Causa Operária, por exemplo, repetindo o mesmo refrão do PT e dos social-democratas do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O PCO insiste que “o imperialismo quer a derrubada do governo petista”, o que não somente é um exagero, trata-se de um louvor político da frente popular no governo. Esconde como Lula e Dilma tem servido como instrumentos dos imperialistas. Também descreve as manifestações de direita como “de tipo fascista” e diz que “um governo de caráter fascista subirá ao poder se o governo do PT for derrubado” (Diário Causa Operária, 22 de março). Novamente, isto distorce a realidade, a fim de dar apoio político à frente popular. Mesmo que as forças da oposição e elementos fortes do aparato estatal estejam apontando a uma saída bonapartista funesta, pelo menos por enquanto isso não necessariamente implica um golpe de estado ou fascismo (que são duas coisas distintas).

Consideramos a situação análoga na Terceira República francesa, que durante a grande Depressão capitalista dos anos 1930 se afundava num mar de corrupção. Em seu panfleto, “Aonde vai a França?” escrito em 1934 após o motim fascista e monárquica do 6 de fevereiro desse ano –que resultou na instalação de um governo de direita do radical Gastón Doumergue, mas também ocasionou, cinco dias depois, uma enorme mobilização de oposição operária de frente unida– Leon Trotsky analisou que o governo bonapartista de Doumergue se erigiu acima do parlamento, baseando-se não na maioria parlamentar mas pelo contrário na polícia e no exército:

“A essência do bonapartismo consiste nisto: apoiando-se na luta de dois campos, ‘salva’ a ‘nação’ através de uma ditadura burocrática-militar.... O governo de Doumergue é o primeiro grau na passagem do parlamentarismo ao bonapartismo.... O fascismo francês, entretanto, ainda não representa, hoje, uma força de massa. Em contrapartida, o bonapartismo tem um apoio –é verdade que nem muito seguro nem muito estável, porém de massa– na pessoa dos radicais. Entre esses dois fatos existe um nexo interno. Pelo caráter social de sua base, o radicalismo é um partido da pequena burguesia. Ora, o fascismo não pode converter-se em uma força de massa senão conquistando a pequena burguesia. Em outras palavras: na França, o fascismo pode desenvolver-se principalmente a expensas dos radicais. Esse processo já ocorre na atualidade, mas se encontra ainda em sua primeira etapa.”

O fascismo busca esmagar a classe operária, aniquilar suas organizações ao mesmo tempo que elimina as instituições parlamentares e as liberdades democráticas. O Brasil também encontra-se hoje numa fase inicial, transitória, marcada pela evolução deste estado em direção bonapartista, não de uma quartelada militar ou sublevação dos fascistas para derrubá-lo.

Porém, suponhamos que a situação é como o PCO a descreve, que estamos em nas vésperas do fascismo ou de um golpe de estado (que, repetimos, não são a mesma coisa) iminente, qual é sua proposta então? Chamar pela “mobilização permanente”, “mobilização intensa na universidade e, em algum momento, colocar toda a universidade na rua”, “mobilizar o povo já contra o golpe”, “colocar o povo na rua, fazer manifestações pequenas e grandes todos os dias”, “multiplicar as ações em todo o País”, etc. (“O golpe em alta velocidade. O que fazer?”, DCO, 22 de março). De verdade? Os fascistas ou golpistas estão (supostamente) à beira da tomada do poder e vamos parar eles saindo à rua marchando e gritando?! Nenhum critério de classe, sempre “o povo”, ou como máximo, o “povo produtivo”. E se isso não bastar? O PCO recorda que no passado os trabalhadores têm feito ocupações de fábrica e greves gerais, mas não faz nenhum apelo concreto, somente a sugestão vaga que nesse caso, “vamos aumentar a aposta”.

Qualquer trabalhador com consciência de classe diria, “Estes senhores estão jogando, não levam a sério suas próprias palavras, não há de confiar neles”. Além disso, os pseudo-trotskistas do PCO longe de combater politicamente a frente popular, tem ingressado nela. Em 1989, quando o PT formalizou seu curso frente-populista, a corrente interna Causa Operária criticou de forma acerba (porém confusa) à Frente Brasil Popular. Agora lemos que o ato do 18 de março foi convocado pela CUT, o MST e a “Frente Brasil Popular (PCO, PCdoB e PT além de outros grupos)”. Se o PCO sonha em obter algum posto de sub-sub-secretário para melhorar seus magros resultados eleitorais, já pagou o preço de entrada. Denunciam “colocar críticas ‘esquerdistas’ ao governo Dilma” e pregam que “no momento, todas as lutas estão subordinadas” à luta contra o “golpe”. Melhor não teria dito nenhum burocrata cutista. Será premiado o PCO por a sua fala?

Em dias ulteriores o PCO tem estendido sua defesa do governo até abranger os seus piores políticos burgueses. Assim saúda a permanência da representante do agronegócio à frente do ministério de agricultura: “Kátia Abreu rompe com PMDB e se mantém no governo” (DCO, 30 de março). É a mesma fazendeira que é conhecida pelos trabalhadores sem-terra como “moto-serra”.

Há vários grupos menores, que como o PCO abusam do nome trotskista, que vão no mesmo sentido. Um dos mais cínicos, a Frente Comunista dos Trabalhadores, chega ao ponto de pedir “Que Lula e Dilma coloquem o aparato do governo a serviço da luta contra o Golpe!” (declaração do FCT do 17 de março). Nem mesmo num sonho. Mais claro não pode ser que os oportunistas dependerem do estado capitalista. Infelizmente para eles, o aparato do governo já vai em sentido contrário, e o alcance do controle que tem o Palácio do Planalto não fica bem claro. Outra variante desta franja iludida do PT, o grupo Espaço Marxista, parte da Frente de Resistência, é mais modesto: escreve que “o governo Dilma também precisa reagir através dos meios institucionais disponíveis”, e pede dele “medidas judiciais e administrativas”, como fazer representação no Conselho Nacional de Justiça contra “os torquemadas tucanos Sergio Moro e Gilmar Mendes”. Logo a seguir admitem: “Ainda que tais medidas não venham a resultar na menor punição” (“Considerações sobre o golpismo em curso”, 20 de março).  No entanto os autênticos trotskistas chamam a combater o perigo bonapartista no sentido de mobilizar a classe operária pela luta contra o estado dos patrões.

Menos delirante mas no mesmo campo seria a centrista Liga Bolchevique Internacionalista. A LBI qualifica erroneamente as manifestações e os manifestantes das passeatas de direita como fascistas, e o eixo de sua política é a chamada pela formação de uma “frente única de ação antifascista”. Em seu “primeiro balanço do 18 de março” quando, à pedido do PT e CUT e outros do séquito petista, talvez meio milhão de partidários saíram à rua “em defesa da democracia, dos direitos da classe trabalhadora e contra o golpe” (convocatória da CUT), a LBI admite que “Lula utilizasse os atos para tentar buscar novamente um ‘acordão’ com a burguesia nacional”, e que “as manifestações deste dia 18 serviram claramente como um elemento de barganha da Frente Popular, uma demonstração de relativa força política no marco de sua política de colaboração de classes”. Porém, se naquela ocasião a LBI chamou a comparecer ao ato “sem avalizar o programa de sua convocatória”, já para a próxima “ação” do campo petista, ela declarou “apoiamos a convocação da ‘Frente Povo Sem Medo’ para o dia 24”. 

Apesar de sua retórica de “frente única de ação”, o que propõe a LBI é a formação de uma frente popular “de combate”, como fizeram alguns grupos socialistas na França nos anos 30 conforme o governo frente-populista de Blum perdia forças. Se fosse uma autêntica frente unida que a LBI queria, no sentido que a Internacional Comunista teria dado a essa palavra de ordem, qual seria a ação comum concreta que propugnaria a LBI? Na realidade o que propõe é um bloco político, de propaganda, com setores de esquerda do entorno petista. Assim chama “à FPSM a engrossar esta Frente Única de Ação Antifascista como parte do combate político-programático para forjar uma alternativa de direção revolucionária”. Este jogo de confundir bloco político com frente unida remonta à campanha presidencial do Lula em 2002. Naquele instante, quando toda a esquerda buscava associar-se com o PT, a LBI, depois de chamar formalmente pelo voto nulo, pretendia descobrir “a maior fraude da história”, chamando a “deflagrar uma ampla mobilização” para insistir que o TSE pronunciasse a vitória de frente popular no primeiro turno. Nós da Liga Quarta-Internacionalista do Brasil ressaltamos, pelo contrário, a “Oposição proletária à frente popular” e a não votar em Lula e seu vice, o multimillionário capitalista José Alencar (Vanguarda Operária, Boletim Informativo n° 14, setembro de 2002).

O campo anti-petista: a esquerda de Lava Jato na esteira da oposição direitista


  Faixa da central sindical Conlutas, dirigida pelo PSTU, que defende “Fora todos, eleicões gerais”, o que no contexto das mobilizações a favor do impeachment e “Fora Dilma” poderiam resultar na substituição no governo da frente popular burguesa pela direita tradicional burguesa.  O lema não tem nada de democrâtico, e muito menos revolucionário, sendo um intento de disfarçar o apoio desta corrente antitrotskista à direita reacionária.  (Foto: Sindmetal São José dos Campos)

Do outro lado da barricada encontra-se o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e a central sindical “e popular” que dirige, a Conlutas, com sua palavra de ordem “Fora todos!” Em suas faixas sempre coloca os nomes ou as fotos de Dilma e Lula em primeira posição, contanto que na prática coincide com os protestos da direita que exigem “Fora Dilma!” Às vezes o PSTU pretende não apoiar o impeachment, mas somente é uma fachada: recentemente, ele recusou aceitar como demanda dos atos da frente Espaço Unidade e Ação que ele dominasse a reivindicação “Não ao impeachment”. E o apelo do PSTU para “Eleições gerais, já!” na situação atual, equivale a um chamado a instalar um governo de direita, na mesma que uma Luciana Genro e até a Folha de S. Paulo. Mesmo que seja disfarçado com a cara de Marina Silva, marionete da estrema direita evangélica, dos ruralistas, dos banqueiros e da indústria armamentista –ou seja da “bancada BBBB” (bíblia, boi, banca e bala)– nada tem de democrático, dado o controle dos escrutínios pelo capital que determina o resultado dos votos.

Porém, é pouco provável que os outros partidos parlamentares convocariam novas eleições, sendo eles todos na mira da Operação Lava Jato. Quase todos no Congresso são corruptos até a medula: é através da propina e da Caixa 2 que funciona a “democracia” burguesa brasileira. Se a presidente não é demitida pelo parlamento mediante um processo de impeachment, resultando num governo de Michel Temer (que acumula 1% das preferências nas pesquisas de opinião), dependeria do TSE chamar novas eleições. E se esse tribunal, não eleito por ninguém, omitir anular o escrutino de 2014, quando a Dilma ganhou com 54 milhões de votos, então como o PSTU pretende expulsá-la do Planalto, já que estamos bem longe de um levante operário esquerdista? De fato, o lema “fora todos” (os políticos, entende-se) poderia ser usado pelos ultra-reacionários que defendem um governo bonapartista de Sérgio Moro (baseado na PF).

Consideramos a história da palavra de ordem “Fora todos!” traduzida do espanhol “¡Que se vayan todos!” que surgiu durante os protestos argentinos durante a revolta popular de dezembro de 2001 contra o presidente Fernando de la Rua do partido conservador União Cívica Radical. Antes do breve entreato de dois anos de governo da UCR, houve uma década de regime do Partido Justicialista (peronista). E depois de 18 dias de panelaços, greves e protestos massivos agora conhecido como o “Argentinazo”, no dia 1 de janeiro de 2002 assumiu um presidente justicialista (Eduardo Duhalde), quem foi sucedido por dois outros presidentes justicialistas (Néstor Kircher e Cristina Fernández de Kirchner) que governavam o país até dezembro de 2015. Será isso uma vitória, ou diretriz a seguir?! A palavra de ordem “fora todos!” serviu para desviar uma situação potencialmente revolucionária, ao limità-la ao marco democrático-burguês.

No fundo, tem pouco a discutir com o PSTU, que só serve de fantoche da oposição de direita para colher apoio da esquerda.

Não obstante, há dois pontos que valem a pena mencionar. Durante meses o PSTU tem conformado uma torcida aplaudindo a “investigação” Lava Jato e do “petrolão”, como o PSOL agiu com o “mensalão”. Recentemente, diante do idolatrado juiz Moro, o PSTU publicou em seu site de Internet um artigo (17 de março) com o título “Nenhuma confiança na Justiça” e um subtítulo “Dois pesos e Duas medidas”. Critica a “parcialidade” da justiça (que nunca caracteriza-a como burguesa, entre outras coisas porque sob a batuta do PSTU a Conlutas sindicaliza empregados dos tribunais capitalistas, igual que policiais, os jagunços do capital, que considera “trabalhadores fardados”!), e pergunta “Por que Moro não vai a fundo e revela toda a sujeira do PSDB?” Isto aceita a ficção de que a “República de Curitiba” estaria investigando a corrupção quando na realidade serve de veículo para o aparato judiciário/policial impor-se aos outros poderes da república burguesa, ao serviço da direita tradicional que quer pegar uma fatia mais grande do suculento bolo Petrobras para a burguesia brasileira, e de setores imperialistas (e seus homens de palha, como o tucano José Serra), de “abrir” mais o mercado petroleiro nacional.

O segundo ponto a salientar é que este posicionamento do PSTU/Conlutas não é nenhum deslize, pelo contrário é a expressão acabada de sua política supostamente terceiro-campista que na realidade serve aos setores burgueses mais reacionários, e ao imperialismo. Na Venezuela sua corrente internacional, a Liga Internacional dos Trabalhadores, a LIT, chega a declarar num artigo (9 de janeiro) em seu site que “A vitória eleitoral da direita” dirigida e financiada pelo imperialismo nas eleições no dezembro passado “expressa de modo distorcido sua raiva” (das massas) contra o governo burguês nacionalista de Chávez-Maduro. Na Líbia, em 2011 a LIT apoiava abertamente o ataque da OTAN para derrubar o regime do nacionalista errático Kadafi. No Egito em 2013, deu seu aval ao golpe do general al-Sisi, apoiado pelos EUA. Na Ucrânia em 2014, davam apoio “de esquerda” ao golpe nacionalista e fascista de Kiev, apoiado pelos imperialistas. Na Síria, apoia os sanguinários mercenários islamistas do Exército Livre Sírio, mercenários do Pentágono e da CIA. Como notamos em nosso artigo “Esquerdistas no campo dos islamistas pró imperialistas na Síria” (Vanguarda Operária n° 12, março-abril de 2014): “A LIT segue ‘criticamente’ à reboque do imperialismo ‘democrático’.”

Os morenistas da LIT elogiavam o contra-golpe de Yeltsin, com o respaldo do imperialismo norte-americano, em agosto de 1991 que resultou na destruição da União Soviética e a restauração do capitalismo no país da Revolução de Outubro dirigido por Lênin e Trotsky. Aqui a revista da LIT do novembro de 1991. Os autênticos trotskistas lutaram encarnizadamente contra a derrubada do estado operário burocráticamente degenerado, repartindo 50.000 boletims na URSS com o título, “Operários soviéticos: Derrotar a contra-revolução de Yeltsin e Bush!” 

O fundamento “teórico” da política “democraticista” burguesa do PSTU e da LIT encontra-se na herança contra-revolucionária de seu fundador, o pseudo-trotskista Nahuel Moreno e suas chamadas por uma “revolução democrática” (ou “revoluções de fevereiro”). Essa política é diametralmente contrária à perspectiva de revolução permanente de Trotsky, que sustenta que nos países oprimidos pelo imperialismo, as tarefas democráticas revolucionárias somente podem ser conquistadas pela revolução operária, que se estende aos centros imperialistas. Não esquecemos tampouco, que com essa política democraticista, os morenistas da LIT saudaram o contragolpe de Yeltsin de agosto de 1991 que foi o ponto de viragem histórico para a contra-revolução que restaurou o capitalismo na União Soviética. Assim a LIT cantou hosanas à “Revolução de agosto” e o “Grão triunfo revolucionário na URSS” (Correo Internacional n° 56, novembro de 1991). Os autênticos trotskistas, naquele então da Liga Comunista Internacional, lutaram na URSS mesma, repartindo 50.000 exemplares de um boletim com o título, “Operários soviéticos: Derrotar a contra-revolução de Yeltsin e Bush!”

Outra corrente morenista no Brasil, a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores) dentro do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) de Babá, também chama pelo “Fora todos!” Nem sequer se escondem por trás da folha de figueira do chamado por novas eleições. Louvam os “milhares nas ruas [que] manifestam seu repúdio ao governo Dilma/Lula e exigem sua renúncia”, agindo como se os grandes protestos de classe média alta, auspiciados pela FIESP e atiçado pela Globo representassem “a ruptura das massas com o governo Dilma” (declarações do 18 e 26 de março da CST). Uma terceira corrente de origem morenista, o MES (Movimento Esquerda Socialista) de Luciana Genro, a candidata do PSOL nas eleições presidenciais de 2014, concorda com a CST e o PSTU no fingido propósito de criar um “terceiro campo” (nem PT, nem direita), mas exige sobretudo novas eleições gerais e defende ferozmente a “investigação” Lava Jato. Se a CST não esconde sua atração às passeatas direitistas, o MES é bem aberto em sua aproximação à candidatura de Marina Silva e sua legenda Rede (fundada por ex aderentes do MES). Em seu blog (30 de março), Luciana Genro escreve: “É Marina quem lidera as pesquisas. E nós vamos à luta.”

As candidatas Marina Silva (esquerda) e Luciana Genro (direita) qui com o Eduardo Jorge do Partido Verde na TV Globo em outubro de 2014. Hoje elas estão juntas com a Folha de S. Paulo no campo direitista do impeachment, defendendo novas eleições.
(Foto: Extra)

Como no caso do PSTU, todos os habitantes do pântano do imaginário “terceiro campo” de “fora todos” servem de joguetes nas mãos da reação direitista e das forças autoritárias. Em entrevista com a Folha de S. Paulo (29 de março), Luciana Genro insiste que o “governo usa o medo” quando ele pretende “que há uma ameaça à democracia, ao estado democrático de direito. Quando, na realidade, não é isso.... Não concordo com a ideia de que essas arbitrariedades contra o Lula são sinais de um ‘golpe do Judiciário’”. Aquela entrevista provocou desconcerto na liderança do PSOL, que publicou uma nota advertindo contra um “golpe institucional” e outra desautorizando Genro afirmando que as mobilizações contra o impeachment não são produtos de uma estratégia de medo senão “resposta aos abusos cometidos por parte do Judiciário, pelas entidades patronais, pela mídia monopolista e pelo Congresso Nacional”. Porém, de fato, a liderança do PSOL (nas mãos da coalizão Unidade Socialista) atua de “linha auxiliar” da frente popular, integrando a Frente Povo Sem Medo desde seu lançamento em outubro do ano passado.

Como o PSTU, o PSOL é um partido social-democrata, inteiramente reformista, que apoia e depende do estado burguês. Trata-se de um partido eleitoreiro por excelência, uma espécie de “PT bis”. Contrariamente a um partido comunista bolchevique, é uma absurda sopa de letras de tendências internas com políticas contrapostas sobre quase tudo, uma garantia que diante de qualquer crise (como esta) ele seria reduzida à paralisia, ou à ruptura. Como escrevemos no momento da fundação do PSOL, “Não precisamos de um “novo partido” social-democrata dos lulistas desiludidos! É necessário forjar um partido operário revolucionário!” (“Abaixo o frentão popular de Lula, arma do capital contra os trabalhadores!Vanguarda Operária n° 8, janeiro-fevereiro de 2005). E enquanto Luciana Genro se fez de heróica porta-bandeira da luta contra a corrupção, lembramos as doações a sua campanha de 2014 pelo Grupo Zaffari (para os detalhes, ver “Eleições no Brasil: O jogo de bicho eleitoral da burguesia”, Vanguarda Operária, outubro de 2014).

O MRT acima do muro, buscando qual movimento de massas seguir

Ao contrário dos social-democratas reformistas do PSTU e as correntes do PSOL que com sua política “terceira-campista” servem de apêndices da oposição de direita, o MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores), grupo centrista ex-morenista, faz um esforço de aparentar uma política contrária a ambos os lados na crise política atual. Num artigo de seu jornal digital Esquerda Diário (20 de março) pretende “Combater o impeachment e não apoiar um governo de ajustes de Lula-Dilma”. Onde o PSTU defende novas eleições gerais (para instalar um governo de direita), o MRT se pronuncia a favor de uma “assembléia livre e soberana”. Porém, esta suposta neutralidade ignora por completo a ofensiva bonapartista, como se fosse simplesmente uma briga entre duas legendas burguesas. Na realidade, a política democraticista destes ex-morenistas é somente uma versão “light” e envergonhada da política dos morenistas. Se o PSTU é o companheiro de viagem da direita judiciário-policial, o MRT é quem pegou carona mas após olhar os outros passageiros agora quer descer do expresso Lava Jato.

Na véspera da mobilização do 18 de março “contra o golpe, pela democracia” convocada pela CUT, a CTB e coalizões pró governo, num artigo explicando “Por que o MRT não vai compor os atos do dia 18”,  assegurou que “essas organizações governistas vão colocar todo centro somente na defesa da presidente Dilma e de Lula”. Em todo o artigo não há nenhum reconhecimento da existência de um perigo bonapartista. Tampouco preconizou estar presente mas combatendo abertamente a política anti-operária do governo. O artigo causou bastante apreensão e rechaço furioso entre seus leitores: de dezenas de comentários só houve dois que defenderam sua linha, enquanto os outros diziam que eles eram contrários a “quase tudo” que fariam os governos do PT mas iriam à manifestação. Um trabalhador na USP escreveu: “E sobre a ameaça à democracia? Ela não existe?... E sobre o crescimento explicito da direita, e do conservadorismo? Também não existem?” Porém, em seu artigo posterior à manifestação do dia 18, o MRT fez uma cambalhota e avaliou que, “Apesar das direções da Frente Brasil Popular tentaram com cantos transformar o caráter do ato em defesa de Lula e Dilma”:

“Em sua maior parte, os cantos não se referem à defesa do governo, mas a um sentimento de ‘não vai ter golpe’. O setor mais presente é notavelmente de jovens universitários, mais presentes proporcionalmente do que nos atos da direita no dia 13/3.... Em distintos locais de trabalho e de estudo a desconfiança que se sentia contra os movimentos do poder Judiciário, da Polícia Federal e da direita não estavam vinculados à defesa do PT”. 

Tacitamente, o MRT admitiu que mal julgou o sentimento das massas, sobre tudo na juventude. Portanto empiricamente mudou sua política, o que se refletiu no relatório de sua conferência nacional onde dizem:

“Avaliamos que apesar do fenômeno novo de marchas de direita reacionárias, a ofensiva do golpe institucional gerou uma reação no conjunto da sociedade, que se manifestou em parte nas ruas no dia 18 convocado pelo governismo, mas que não foram ali meramente para apoiar Dilma e Lula, mas criticamente ao seu governo, mas vendo a ameaça clara da direita avançar ainda mais no país”.

Qual é a conclusão programática disso? O MRT propõe:

“trabalhar sobre as bases das grandes centrais sindicais governistas como a CUT e a CTB, além das entidades estudantis, para obrigar que rompam sua subordinação ao governo e convoquem assembleias de base e um plano de lutas que combine paralisações, manifestações e que culmine numa greve geral para barrar os golpes institucionais reacionários, os ataques às condições de vida dos trabalhadores e da juventude por parte dos governos, em particular do PT, e abra caminho para uma resposta efetiva para a crise que vivemos no país”.

Eis aqui um exemplo clássico da política morenista de fazer pressão sobre as lideranças atuais para adotar um “plano de lutas” classista, o que não vão fazer. Ao contrário deste programa ilusório, autênticos trotskistas propõem ações concretas onde se pode exigir dos sindicatos e partidos operários que participem, como a LQB fez em nosso artigo do 30 de março. É isso que significa a frente unida, uma poderosa ação comum de classe, alem das profundas diferenças políticas. Mas coloca também na ordem do dia a luta para romper politicamente com as lideranças traidoras que obstaculizam constantemente a luta operária.

A tática do MRT (anteriormente a LER-QI), e da corrente internacional Fração Trotskista à que pertence, cuja seção principal é o PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas) argentino, é de constantes manobras buscando sempre ser a ala de esquerda de algum movimento de massas. Tem dificuldades quando não pode escolher entre dois movimentos em conflito, quando o objeto de suas atenções não quer, e quando descobre que foi ele o usado e não ao revés. No terreno brasileiro tem oscilado entre ir a reboque do PSTU ou do PSOL. De julho até dezembro, o MRT pedia entrada como corrente interna deste partido-conglomerado de correntes, só para ver rejeitadas suas propostas amorosas. Mais recentemente concentrava sua atividade no Espaço Unidade e Luta, que abriga vários grupos de esquerda extra-parlamentar que, no imaginário do MRT, “buscam construir um campo alternativo diante da conjuntura marcada pela disputa entre o PT e a oposição de direita em torno do impeachment”. Porém, na última reunião deste bloco de propaganda sob influência do PSTU, a proposta de se opor ao impeachment não foi ouvida.

Em várias polêmicas contra a política do PSTU, a principal diferencia que o MRT marcou foi que em vez de “novas eleições” ele quer uma “Assembléia Constituinte Livre e Soberana”. Fala em defender “uma democracia onde sejam os próprios trabalhadores e todo o povo que decida os rumos do país de como combater a corrupção a como acabar com os ajustes”. Agitando esta bandeira da “democracia radical”, finge que há uma solução favorável aos trabalhadores sob domínio burguês, o que é mentira. Por um lado, propõe que sua constituinte sonhada decida que “todo caso de corrupção fosse julgado por júri popular, que cada cargo público dos juízes aos parlamentares fossem eleitos e revogáveis”. Júris populares e a eleição (e revogabilidade) dos juízes e dos procuradores já existem nos EUA e não altera nada do caráter reacionário da justiça de classe, como se pôde verificar nos casos de assassinatos de jovens negros por policiais racistas, que seguem gozando da impunidade. Por que? Porque os tribunais fazem parte essencial do aparato repressivo do estado capitalista, junto à polícia e o exército.

Tal como a palavra de ordem “fora todos”, a reivindicação de uma assembléia constituinte também foi bandeira de luta dos grupos pseudo-trotskistas durante e depois do “Argentinazo” de 2001. Como explicamos naquele então:

“Os ‘peixes grandes’ do pântano pseudo-trotskista argentino estão todos de acordo em chamar por uma ‘assembléia constituinte’. Com que finalidade? Querem pretender que todavia há restos de feudalismo na Argentina, um país sem campesinato (no campo quase todos os lavradores são trabalhadores assalariados)? A Argentina tampouco jaz sob uma ditadura militar atualmente, senão que tem havido uma série de governos parlamentares eleitos. Não, esta palavra de ordem expressa o desejo destes grupos oportunistas de aproximarem-se da classe média sobre uma base ‘democrática’ (ou seja, burguesa) e não socialista. É a expressão atual de chamada ‘revolução democrática’ pregado pelo falecido Nahuel Moreno – o padrinho do PTS, MAS e MTS – que lançou esta palavra de ordem fazendo eco à propaganda anti-soviética dos reganianos dos anos 80.”
–“Argentina sacudida pelos panelaços, Brasil: movimento operário sob ataque”, Vanguarda Operária n° 6, janeiro-fevereiro de 2002

Por outro lado, em seus delírios democrático-burgueses, o MRT pretende sua constituinte imaginária poderia decidir a “nacionalização do comércio exterior, a expropriação dos latifundiários”, “impor o fim da sangria dos recursos do país para o imperialismo pela via do pagamento da dívida”, etc. Uma fantasia utópica, e finalmente reformista. Estão atribuindo à um órgão burguês tarefas que nesta época imperialista somente poderiam ser realizadas derrubando o domínio do capital. Como salientamos no mesmo artigo:

“Então, para salvar a população trabalhadora da Argentina da ruína será necessário não somente repudiar a dívida externa, mas também expropriar os bancos e o resto das empresas chave do país. Isso não faria nenhum governo capitalista, por mais nacionalista que seja sua retórica. Mesmo um governo operário revolucionário teria enormes dificuldades frente às represálias inevitáveis do imperialismo em realizar essas medidas essenciais, que requerem uma revolução socialista internacional”.

Respondendo ao temor (justificado) que qualquer assembléia constituinte hoje facilitaria a ascensão da direita reacionária, e que seria pior que a que pariu a Constituição de 1988, os porta-vozes do MRT insistem que a sua constituinte seria “imposta pela mobilização dos trabalhadores”. Mas se os trabalhadores mobilizassem, os revolucionários lhes ofereceriam um programa “democrático radical” e não socialista?! Isto não é trotskismo, trata-se da reformista “revolução por etapas” estalinista, ou no caso dos morenistas, social-democrata.

Revolução agrária, democracia pelos trabalhadores, libertação nacional da dominação imperialista: nada disso será realizado hoje em dia sob o domínio do capital. De fato, foi esta percepção que deu origem à teoria de revolução permanente de Trotsky e sua insistência que nesta época imperialista somente mediante a revolução operária e sua extensão ao coração do imperialismo é que se pode resolver as grandes tarefas das revoluções democrático-burguesas do passado. Embora os morenistas do PSTU rechaçam abertamente a revolução permanente, seguindo os passos de seu mestre Moreno, os ex-morenistas do MRT dizem defender aquela tese. Mas na prática defendem o mesmo programa de reformas “democráticas”, só querendo radicalizá-las um pouco, assembléia constituinte em vez de novas eleições gerais. E a respeito de sua palavra de ordem de “governo dos trabalhadores que rompa com o capitalismo e o imperialismo”, o separam da revolução socialista que derrube o capitalismo. O PT mesmo falava de um governo de trabalhadores, dentro do marco do estado burguês. Já vimos o resultado.

Dois comentários finais sobre o MRT: primeiro, mesmo que tem rejeitado a tese de Moreno de defender a “revolução democrática”, continuam a sua metodologia a enfocar tudo numa ótica estritamente “democrática”. E segundo, cria uma confusão total ao comparar a política do PSTU com a linha do Partido Comunista Alemão quando se alinhou com os nazi-fascistas no “referendum vermelho” de 1931. A Internacional Comunista repetiu as diretrizes do Kremlin sob Stalin, que nesse tempo seguia uma política ultra-esquerdista temporária, do chamado “Terceiro Período”, que logo abandonou ao adotar o programa da Frente Popular. O PSTU de hoje, que o MRT qualifica erradamente de centrista, é uma corrente social-democrata reformista até a medula. Trotsky criticou a política do PC Alemão stalinista como “erro” e “aventureira”, porém a coincidência da política do PSTU hoje com a direita burguesa é coerente com sua ótica geral de colaboração de classes.

O que fica evidente desta resenha é que toda a esquerda brasileira –centristas e reformistas juntos– arvora um programa “democrático” burguês, em meio de uma crise política profunda que exige uma resposta de classe, operária e revolucionária. Só a Liga Quarta-Internacionalista reivindica um programa de oposição proletária à direita burguesa e à frente popular burguesa no poder. Chamamos por paralisações, greves com ocupação de fábricas, formação de comitês de greve eleitos e revogáveis, conselhos operários e guardas operárias de massas para defender contra a repressão. Dizemos que há de preparar uma greve geral de tempo indefinido para esmagar a ameaça judiciária-policial, bloquear o impeachment, impedir o ajuste e afundar as privatizações e “reformas” trabalhista e previdenciária. E para realizar tudo isto é imprescindível forjar o núcleo de um partido operário revolucionário, leninista e trotskista, para lutar por um governo operário e camponês, o início da revolução socialista internacional.