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Nº 4, janeiro/abril de 1999 PCO
condena ex-sem-terra
Fica
nua a capitulação do PCO aos preconceitos burgueses e religiosos
Após a contra-revolução capitalista na ex-URSS e nos países do Leste Europeu, tem aumentado ao redor do mundo o fundamentalismo religioso e tem havido uma verdadeira cruzada religiosa com objetivos materiais reacionários, cuja maior vítima têm sido as mulheres. No Brasil a corrente católica "Renovação Carismática" criada nos EUA em 1967 tenta ser porta-voz do papa João Paulo Wojtyla e suplantar a "Teologia da Libertação", e atualmente invade programas de rádio e TV com sua "aeróbica do Senhor" pregando a homofobia, o antiaborto e o culto à Virgem Maria, a virgindade e a submissão das mulheres como valores supremos da mulher. Ao mesmo tempo a Igreja Universal do Reino de Deus, criada no Brasil na década de 70, tem crescido mais que outras igrejas evangélicas tradicionais. Seu crescimento vertiginoso, igualmente em emissoras de rádios e TV, tem causado numerosos escândalos e uma verdadaira guerra religiosa na cata de fiéis prometendo-lhes, ante os sofrimentos aqui na terra, "o reino dos céus" enquanto seus líderes ficam cada vez mais ricos aqui neste mundo. É neste contexto que criticamos e denunciamos a capitulação da esquerda em geral e em particular o Partido da Causa Operária (PCO) à moral burguesa e religiosa. Na revista n° 1 da Juventude Revolucionária (janeiro de 1998), órgão da Aliança da Juventude Revolucionária, grupo juvenil do PCO, Anaí Caproni, uma dos seus dirigentes centrais, escreveu uma matéria atacando a ex-sem-terra Débora Rodrigues por ter ido contra os preconceitos puritanos. Defendemos Débora Rodrigues contra os ataques religiosos e preconceituosos, tanto dos padres e jagunços como de Stédile ou Anaí Caproni! O artigo ataca Débora Rodrigues por ter posado nua na revista Playboy (outubro de 1997). Perguntando como a ex-sem-terra, totalmente desconhecida, conseguiu tanto destaque na imprensa, Caproni esboça brevemente uma teoria de conspiração contra o Movimento dos Sem-Terra. Mas este pretexto mostra-se ser uma pequena folha de figo (como as que os pintores usavam para preservar a "decência" nas imagens de pessoas nuas) para tentar cobrir a nudez da capitulação do PCO às críticas religiosas e reacionárias feitas contra Rodrigues por haver "ousado" posar nua. O PCO está apelando aos preconceitos religiosos e atrasados de vários dirigentes e bases do MST. Caproni inclusive tenta culpar Débora pelas agressões dos fazendeiros e seus jagunços às mulheres ligadas ao MST, que perguntam: "quem será a próxima a tirar a roupa e deixar-se fotografar nua?" Denunciando o que ela chama "este ‘moderno' método de prostituição", Caproni escreve: "Para qualquer mulher é, obviamente, uma enorme humilhação expor sua intimidade ao grande público por dinheiro...." Moralizando contra o "decadente meio social da burguesia", predica contra as mulheres nuas: "é bem conhecido das profissionais desta atividade ‘tão antiga como o homem': vários são os clientes que pagam somente para vê-las se despir e ‘estimular' suas ‘fantasias' eróticas". Fantasias eróticas, estimulação, mulheres nuas. A alma de cada padre deve estar tremulando de horror! O que diria o papa Wojtyla? Aqui devem-se fazar várias perguntas. Por quê seria "óbvio" que é uma "enorme humilhação" para "qualquer mulher expor sua intimidade" desta maneira? A expressão "expor sua intimidade" (quer dizer seu corpo) já mostra as idéias de Caproni. Segundo todas as religiões, a mulher deve ter vergonha de seu corpo. A Bíblia e a moral burguesa predicam medo e preconceito contro o corpo mesmo da mulher, os "pecados" dela (que supostamente causaram a expulsão do Jardim do Éden) e sua sexualidade. A igreja nega qualquer prazer sexual da mulher, dizendo que o sexo é só para procriação. No Afeganistão, com a vitória dos fundamentalistas reacionários muitas professoras foram assassinadas e meninas são impedidas de estudar e no Irã, os sacerdotes muçulmanos organizam milícias e polícias de terror contra as mulheres para sufocá-las sob o chador, véu que cobre todo seu corpo, considerado fonte do pecado e a tentação. Porém, lembremos que o PCO saudou a "Revolução Iraniana" dos ayatollahs medievalistas e se opôs à intervenção da União Soviética contra os mujahedin ("guerreiros santos") financiados pela CIA no Afeganistão. Lembremos também que por muitos anos o PCO, como quase toda a esquerda brasileira, evitava falar (ou falava o mínimo possível) da questão da luta contra a oppressão da mulher e do negro, sendo estes dois temas e a questão da frente popular os principais motivos originais de rompimento da Luta Metalúrgica (hoje LQB) com Causa Operária em 1994. O que é isso de que para "qualquer mulher", é necessariamente "humilhante", mostrar sua "intimidade"? Isto não só é falso nesta sociedade, mas existem outras sociedades e culturas onde as mulheres (e/ou os homens) costumam não usar roupas, ou usar pouca roupa. Isto ocorre não só com vários povos índios e africanos, mas também na história da Europa, Ásia e outros lugares. Deve se perguntar aos moralistas: é humilhação e "prostituição" posar com roupa? Parcialmente nua? Só totalmente nua? É humilhante e um exemplo da prostituição para homens posar sem roupas? Não ocorre a Caproni que também há mulheres que gostam de ver fotos de mulheres nuas e/ou homens nus? O PCO gostaria de voltar à época anterior do Renascimento – quando os avanços na cultura humana incluíam o estudo sistemático e a representação gráfica do corpo humana – e condenar os modelos que trabalhavam com os artistas Leonardo da Vinci ou Goya e que ganhavam dinheiro posando nuas? Ou isso é permissível para a arte histórica mas não para uma "ex ‘sem-terra' como Débora Rodrigues"? Tentando dar credibilidade a sua matéria, Caproni assina como "estudante da USP", talvez tentando mostrar um alto nível cultural. Nos EUA, a primeira Miss America negra foi Vanessa Williams. Muitos racistas ficaram irritados porque não queriam que naquele concurso de beleza comercializada, uma mulher negra ficasse como representante da mulher norte-americana. Quando uma revista de fotos eróticas publicou fotos de Vanessa posando nua, ela perdeu seu título e foi substituída por uma mulher branca e loira, que para os preconceituosos representava melhor o "ideal" norte-americano. Contra estes preconceitos, dizemos "Viva Vanessa!" É realmente incrível que o PCO diga que posar nua é igual à prostituição! É um exemplo nítido do moralismo religioso e burguês. Os corpos de atores, jogadores de futebol, etc, são "comercializados"; o PCO chama prostitutos ou prostitutas eles também? Mas falemos um pouco sobre a prostituição mesma. Lutamos contra todas as leis, repressões e violências contra as prostitutas. Ao mesmo tempo, explicamos que a exploração das prostitutas só pode desaparecer em uma sociedade socialista, na qual a escassez, a miséria e a opressão da mulher (baseada na família nuclear burguesa e reforçada pela moral burguesa que o PCO repete) sejam desarraigadas. Em Volta Redonds, uma lei municipal foi promulgada em maio de 1998 para proibir a exposição pública de "fotos eróticas" (Diário do Vale, 25/5/98). Esta censura mostra no interior da frente popular que governa a cidade uma verdadeira frente clerical-stalinista entre os padres, "predicadores" protestantes ("evangélicos") e a vice-prefeita stalino-petista. Nós protestamos energicamente contra esta censura e todo tipo de censura. O evangelho do PCO não é novo, é muito velho: os stalinistas também falaram do "decadente meio social da burguesia" para lançar campanhas puritanas e preconceituosas que fazem eco do mais reacionário moralismo burguês. O PCO tenta mosrar mais uma vez, que seu suposto "anti-stalinismo", nada mais é do que anti-sovietismo e segue capitulando à burguesia: apoiaram todas as forças anti-soviéticas contra-revolucionárias como a Solidarnosc de Walesa, Wojtyla e Reagan, mas têm a mesma posição puritana que os stalinistas e capitulam sistematicamente às frentes populares promovidas pelos social-democratas e stalinistas para aliar-se à burguesia "progressista" ou "nacional". Não foi casual que a matéria de Caproni tenha sido escrita três meses após a vinda do Papa ao Brasil (maior país católico do mundo) na sua cruzada contra o aborto e outras conquistas e direitos das mulheres. Nós trotskistas nos opomos a todo tipo de censura. Lutamos contra os preconceitos e moralismo podre da burguesia. Lutamos também contra as leis e proibições dos chamados "crimes sem vítimas" como por exemplo a "pornografia", os jogos de azar, as drogas – a suposta "guerra contra as drogas" é pretexto para a repressão racista nas favelas do Brasil e nos guetos, bairros negros e hispanos nos EUA, é pretexto para a intervenção de tropas imperialistas na Bolívia, Colômbia e outros países, o seqüestro de cidadãos mexicanos pelo governo norte-americano, etc. Não deve haver nenhuma repressão contra nenhuma atividade sexual consensual: governo e igreja fora dos leitos e da vida privada das pessoas! Lutamos contra as leis, a discriminação e os preconceitos
contra os homossexuais, uma questão muito importante no Brasil,
o segundo país do mundo (depois do México) em número
de assassinatos de homossexuais. Exigimos creches para as crianças,
gratuitas e disponíveis 24 horas por dia. Direito ao aborto livre
e gratuito; atenção médica de alta qualidade e gratuito
para todos. E defendemos Débora Rodrigues contra os ataques religiosos
e preconceituosos, venham estes dos jagunços, dos padres, de João
Paulo Wojtyla, ou Pedro Stédile e Anaí Caproni! Libertação
da mulher mediante a revolução socialista!
Liga Quarta-Internacionalista do Brasil
E-mail: internationalistgroup@msn.com Voltar à página principal da LIGA QUARTA-INTERNACIONALISTA DO BRASIL |